Vulcão Lascar: subi um vulcão ativo no Atacama!

Você já imaginou subir um vulcão ativo? Pois esse é um dos passeios que você pode fazer durante sua viagem ao Atacama – subir o vulcão Lascar!

O Lascar é o vulcão mais ativo do norte do Chile. Possui 5592 metros de altitude e está situado a cerca de 110 quilômetros de distância do centro de San Pedro de Atacama (SPA).

Sua cratera possui 750 metros de diâmetro e 300 metros de profundidade. A última erupção ocorreu em 18 de abril de 2006, mas constantemente deixa a região em alerta ao emitir imensas colunas de fumaça e cinzas. No dia a dia sai de sua cratera uma fumarola que é possível avistar de SPA.

Por que decidimos subir o vulcão Lascar?

Nós tínhamos um dia livre em nosso roteiro, no qual eu queria fazer algo único. Comecei a ler sobre trilhas e me deparei com duas que me interessaram: subir o Licancabur ou o Lascar.

O vulcão Licancabur requer ao menos dois dias livres e tem um nível de dificuldade muito maior, já que o desnível é considerável e o solo é cheio de pedras soltas. Neste caso, é essencial que se tenha um ótimo condicionamento físico.

Esse lindão atrás de nós é o Licancabur

Acho que não precisava ser tão difícil nossa primeira experiência!

Então vamos de segunda opção! Comecei a pesquisar e ler sobre a experiência de quem havia subido ou tentado subir o vulcão Lascar. Os relatos se dividiam entre “que experiência incrível” e “nossa, é muito difícil”.

Fiquei dividida. Estava mais tentada a desistir, com receio de não concluir. Mas o Yu, que é tão doido quanto eu, se animou horrores e me convenceu de fazermos. Ai socorro!

Que comece o preparo psicológico!

É preciso ter experiência para subir o Vulcão Lascar?

Não. A subida do vulcão Lascar é considerada de nível técnico fácil.

Mas é importante que você não tenha problemas de saúde, principalmente cardíaco e/ou pulmonar. Além disso, é essencial que a subida seja acompanhada por um guia experiente. De forma alguma faça essa subida sozinho ou com uma agência qualquer.

Olha a fumacinha dele!

Aqui o barato pode sair bem caro. É sua vida em risco. Digo isso porque na semana anterior à nossa viagem um brasileiro morreu durante a subida. Ele sofria de problemas cardíacos e teve um infarto.

Além disso, antes de subir o vulcão Lascar, faça uma aclimatação adequada

Nem cogite subir antes disso.

A subida do vulcão Lascar deve ocorrer somente no fim da sua viagem, já que você terá passado alguns dias em altitude elevada.

O que ocorre é que quando estamos em altitudes elevadas temos menor disponibilidade de oxigênio. Assim, exige mais dos nossos pulmões e do nosso coração. A aclimatação seria, resumidamente, a readequação do nosso corpo para trabalhar com menos oxigênio. Com o passar dos dias, a exigência dos nossos órgãos é reduzida.

É muito importante também manter-se sempre muito bem hidratado, pois quanto maior a altitude, mais seco é o ar, que dificulta as trocas gasosas.

Além disso, o sangue fica mais espesso, pois há maior produção de hemácias, para compensar a menor disponibilidade de oxigênio. Por este motivo, é importante manter-se ativo e muito hidratado para evitar a formação de coágulos.

Preparativos

Conversa com o guia

Alguns dias antes da nossa subida, que ocorreu no dia 26/11/2017, conversamos pessoalmente com o guia que iria nos acompanhar. Ele nos explicou detalhadamente sobre a subida, nos perguntou sobre nossa saúde, condicionamento físico, experiência prévia e também nos aconselhou sobre como nos prepararmos, que roupas deveríamos usar, etc.

Esse papo foi excelente para nos tranquilizar pois eu, principalmente, estava um pouco receosa por causa dos relatos que havia lido na internet e também com a morte do brasileiro na semana anterior.

Isso difere uma boa agência (ou guia) das ruins. De forma alguma o guia nos deixaria subir se tivéssemos algum histórico de saúde que pudesse nos colocar em risco. Claro, o evento recente também deve ter deixado os guias mais preocupados na ocasião.

No dia anterior à subida devemos:

  • Nos alimentar bem, porém com refeições leves, de fácil digestão;
  • Evitar carne vermelha no jantar, já que ela demora mais para ser digerida;
  • Evitar bebidas alcoólicas;
  • Nos hidratar muito bem;
  • Nada de balada! Dormir cedo, ter uma boa noite de sono.

O que vestir

  • Botas de trilha;
  • Meias quentes e confortáveis;
  • Segunda pele tanto para as pernas, como para o tronco e braços;
  • Calça confortável, se possível impermeável;
  • Blusa grossa;
  • Jaqueta corta vento e impermeável (pode ser que neve, dependendo da época);
  • Bandana para cobrir o nariz;
  • Cachecol (eu o usei para cobrir o rosto);
  • Luvas;
  • Gorro.
Os empacotados!

As temperaturas são sempre negativas, mesmo no verão. Nós iniciamos nossa subida com temperatura de -5°C. No topo do vulcão Lascar a sensação térmica era de -15°C, principalmente por causa do vento.

No inverno estas temperaturas são ainda mais baixas e, em geral, na presença de neve.

É interessante usar também

  • Óculos de sol de boa qualidade (principalmente se o vulcão Lascar estiver coberto de neve);
  • Bastão de trilha, geralmente incluído no pacote;
  • Protetor solar e protetor labial.

Vá leve! Na mochila somente o essencial:

  • Celular;
  • Câmera fotográfica;

Ah! Mantenha esses equipamentos sempre bem protegidos do frio, pois este descarrega rapidamente as baterias, e as telas LCD podem parar de funcionar temporariamente (aconteceu com a nossa câmera);

  • Água. Leve 1-2 litros de água por pessoa, é importante se hidratar durante a subida;
  • Papel higiênico, lenço umedecido, saquinho de lixo. Toda essa água vai querer sair e você, inegavelmente, vai precisar fazer uma oferenda para Pachamama!

Como foi nossa experiência

Para começar – Perrengue!

Eu não lembro exatamente que horas nosso guia havia marcado com a gente, só sei que era antes do nascer do sol e que ele chegou com uma hora de atraso. Por que? Surpreendentemente mudou o guia!!!

Sim! Além de termos ficado desesperados porque ninguém nos deu um aviso sequer sobre o atraso, o único contato que tínhamos da agência não respondia, ainda mudaram o guia, com quem a gente nem tinha conversado, não sabíamos qual era sua experiência, nada… Meu, foi muito tenso.

Divirta-se e também aprenda com meus Perrengues Bárbaros!

Depois ele nos explicou que o guia original adoeceu e o avisaram somente na noite anterior. Podiam ter nos avisado também, né??? Mais uma mancada da agência Atakama Cultura Aventura.

Ao longo da viagem até a Laguna Lejia, de onde temos uma vista incrível do vulcão Lascar e tomamos café da manhã, toda a tranquilidade que o guia original havia nos passado havia indo para o beleléu. Naquela 1h30-2h de viagem passou um monte de coisa pela minha cabeça. Estava bem desconfortável.

Alarme falso!

Mas, durante o café da manhã, delicioso, diga-se de passagem, tivemos a mesma conversa que havíamos tido com o guia anterior.

O guia nos informou como tudo seria, que ele ia ditar o ritmo certo, que seguiríamos numa fila indiana sempre juntos. Além disso, pararíamos para beber água e descansar um pouco a cada 25-30 minutos.

Perguntou sobre a gente. Nos disse que se ele percebesse que alguém não tinha condições de continuar, ia mandar voltar, que se alguém não tivesse condições para subir, ficaria no carro esperando.

O Lascar é o primeiro à esquerda.

Resumindo, apesar dos pesares, o cara era um dos mais experientes de lá (ele subia ao menos 2 vezes por semana havia uns 15 anos) e responsável, me passou muita segurança!!! Ufa! Agora a ansiedade era pelo que estava por vir!

Que comece a subida!

Devidamente alimentados, seguimos de carro até o início da trilha, cerca de 4800 metros de altitude. Apesar do desnível ser de apenas 800 metros, a trilha é toda em zigue zague, para facilitar a subida, totalizando uns 3 quilômetros o trecho.

E lá fomos nós. Em um passo bastante confortável, que dava até para cantar, apesar de estar ofegante. Naquele momento percebi que eu ia sim chegar ao topo!!!

Porém, nem tudo são flores. Nosso grupo era formado por 5 pessoas além do guia. Uma dessas pessoas era uma mulher, na casa dos 20-30 anos, que ao longo de todo o caminho se gabou de suas experiências prévias e seu condicionamento físico.

Pois bem, ela pedia para parar o tempo todo!!!! Atrapalhou muito a evolução do grupo (nada feliz com aquela situação), pois o ritmo é ditado por aquele menos preparado, já que de forma alguma o grupo se separará.

Conosco havia um polonês bem experiente em escalar montanhas e vulcões, que claramente tinha mais condicionamento que todos nós, e estava bem incomodado também. Talvez se ela não tivesse se gabado tanto, o grupo levaria a dificuldade dela mais na boa.

Fica a dica: por mais bem preparado que você se sinta, não fique achando que é moleza, o Lascar pode te quebrar.

O guia ameaçou algumas vezes não permitir que ela continuasse, que ela voltaria para o carro se não tivesse um pouco mais de força de vontade. Ela chegou na cratera (5500m), mas ele não permitiu que ela continuasse até o pico, que estava a mais 100 metros de elevação.

Olha a gente na cratera do vulcão Lascar! Até o doguinho subiu!

Aqueles 100 metros finais – conquistamos o Vulcão Lascar!

Pensando no que a gente já tinha feito, parecia que seria fácil essa última parte. No entanto, foi a mais difícil de todas, não só pela altitude em que já estávamos, mas também por causa da aclividade muito mais acentuada deste trecho.

Aqui bateu um desespero. Falar já não era tão fácil. Foram uns 30 minutos de silêncio, que cessou ao chegarmos ao cume! Cansou demais, mas a sensação de chegar lá em cima, nossa, essa conquista foi maravilhosa. Tudo era incrível! A vista, a conquista, o frio! Nem o cheiro horroroso de enxofre, vulgo ovo podre, atrapalhou aquele momento!!

Ficamos por lá uns 10 minutos, retornamos para a cratera, onde ficamos mais uns 10-20 minutos, fizemos um brevíssimo vôo de drone (lembra da questão da bateria?) e iniciamos nosso retorno. Não é aconselhável ficar muito mais que isso não só pela altitude, mas também por causa dos gases tóxicos expelidos pelo vulcão.

Na descida todo santo ajuda!

As vezes até demais! Se você não tiver cuidado, dá para tomar diversos capotes (eu quase tomei uns 10!!!). Isso porque o solo é cheio de pedrinhas e em alguns pontos a areia é fofa. Era fácil deslizar.

Voltando para a cratera

A descida durou por volta de 1h. Estávamos todos muito felizes e contentes, exceto a menina que ficou mega emburrada o restante do passeio.

Voltando para o carro

Nossa Barbara, coitada da menina

Gente, quando fazemos algo em grupo temos que pensar em todos. Se você percebe que está atrapalhando os demais, precisa fazer algo para mudar essa situação. No caso dela, poderia ter se esforçado mais ou desistido.

Ah, mas ela poderia ter um treco ali caso se esforçasse. Se o guia, com sua experiência, disse que faltava força de vontade da parte dela, possivelmente é porque percebeu que era mais corpo mole. Não creio que um guia, que me pareceu bastante responsável, fosse exigir além do que ela podia.

Nosso super guia!!!! Infelizmente não lembro seu nome 🙁

Eu digo isso porque não é necessário muito condicionamento físico, mas sim trabalhar bem sua respiração e seu psicológico. A subida é feita um passo curtinho de cada vez, um pé em frente ao outro.

Porém, estamos a mais de 5 mil metros de altitude, temos menos oxigênio disponível. Então, se mantiver a respiração mais fluída possível e não deixar o psicológico te abalar, qualquer um sem problemas de saúde sobe, quando bem guiado.

Consequências

Assim que chegamos em SPA e deitamos para descansar um pouco, veio a pior dor de cabeça que já tive até então. Não conseguia existir de tanta dor e enjoo que sentia. Uma mescla dos efeitos da altitude e do enxofre inalado.

Pior, tínhamos que arrumar nossas malas, pois no dia seguinte bem cedo tínhamos voo para Santiago.

Aproveitamos para fazer um stopover para visitar algumas vinícolas de Santiago!

Com muito esforço levantamos e fomos numa farmácia próxima e pedi o remédio mais forte que eles tinham para enxaqueca. Tomei dois, conforme a bula, e cerca de meia hora depois era outra pessoa!!! Uma pena que agora não me lembre o nome do remédio.

Considerações finais

Agência

Apesar dos perrengues que poderiam ser facilmente evitados pela comunicação, gostei demais dos 2 guias. Ao menos no mais importante, nossa segurança, eles não pecaram.

Passeio

Imperdível! Se você tem força de vontade, vale demais a pena incluir a subida do vulcão Lascar no seu roteiro. É algo único e inesquecível!

Gente, eu não coloquei essa experiência mara no meu Top 10 experiências bárbaras… chocada!

Isso sem contar a vista incrível daquele lugar. Deserto do Atacama aos nossos pés!

Não custa nada ressaltar o óbvio: de forma alguma suba sem o acompanhamento de um guia experiente.

A maioria das agências, se não todas, incluem translado, café da manhã, lanche de trilha e equipamentos no pacote. Algumas até incluem o almoço. Na época pagamos 70 mil pesos por pessoa.

A saída costuma ocorrer entre 5-6h da manhã com retorno após 15h.

Atualmente é necessário pagar também uma entrada, no valor de 10 mil pesos por pessoa, à parte do pacote.

Fica a dica

– É possível voar de drone sobre a cratera, porém se você não tiver muita experiência de pilotagem, talvez seja melhor nem tentar. Isso porque a fumaça expelida pode fazer você perder um pouco do controle do drone. Além da bateria durar bem menos tempo por causa do frio.

Nosso guia nos disse que já havia visto muitos turistas perdendo seus drones, que caíram na cratera. Aliás, um dos turistas queria que o guia fosse busca-lo!!!

– Pode ser que o passeio seja cancelado por motivos climáticos, como também por erupções do vulcão Lascar. Nosso guia disse que uma pequena erupção já ocorreu enquanto ele subia. Não é um vulcão de lava, então os riscos são menores, mas ainda existem.

A subida leva entre 1h30-4h e a descida entre 1-2h, dependendo do grupo. Ou seja, esteja bem agasalhado e confortável.

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