Cânions do Xingó e Vale dos Mestres de lancha

Como já contei para vocês anteriormente, o principal motivo para escolher essa road trip por Sergipe e Alagoas foi para conhecer os famosos Cânions do Xingó. Mas enquanto escrevia este texto, descobri que na verdade queria conhecer os três cânions do Velho Chico!

A convite do Lucas Tur conhecemos os famosos cânions do Xingó e o Vale dos Mestres.

Como são formados os cânions?

Os cânions são formados pela ação da água fluvial associada à atividade tectônica sobre as rochas ao longo de milhares de anos. O resultado é a formação de dois paredões verticais delimitando o leito dos rios.

Falei difícil? É assim: o rio passa, vai gastando a rocha, a crosta sobe, ajuda a abrir mais o buraco, e milhões de anos depois, taí essa paisagem incrível!

Cânions do Velho Chico

O Brasil tem diversos cânions e só no leito do Rio São Francisco são três: Cânion do Rio São Francisco, Cânion do Xingó e Cânion do Talhado.

O Cânion do Rio São Francisco situa-se entre a Cachoeira de Paulo Afonso, na Bahia, e Canindé de São Francisco em Sergipe. Os paredões podem chegar até 100 metros de altura nessa região.

Cânions do Xingó

O Cânion do Xingó foi produzido pela ação do Rio Xingó, o qual foi afogado pela represa do Xingó. Nesta região os paredões chegam a cerca de 30 metros de altura.

Já o Cânion do Talhado foi esculpido pelo Rio Talhado que também foi afogado pela represa do Xingó, com paredões mais modestos.

Até 1994 os dois últimos cânions eram secos e cobertos pela caatinga. No entanto, o cenário mudou completamente com o represamento das águas do Rio São Francisco para a construção da usina hidrelétrica de Xingó, situada entre as cidades de Canindé de São Francisco, em Sergipe, e Piranhas, em Alagoas.

Os três cânions são de belezas únicas, delimitados por enormes paredões em tons alaranjados contrastando com as águas verdes do rio São Francisco.

Cânions do Xingó

Além das belezas naturais, a região tem também importância histórica e cultural. Por exemplo, foram encontrados diversos vestígios de que a região era habitada há pelo menos 9 mil anos. Já na história recente, a região foi palco da emboscada de Lampião e seu bando em 1938.

Os dois lados da moeda

Lembram que eu comentei como a construção da hidrelétrica do Xingó causou impactos negativos na região da Foz do Rio São Francisco? Então, já na região da hidrelétrica, os efeitos sociais foram em sua maioria bastante positivos.

O represamento de água viabilizou a navegabilidade, impulsionando exponencialmente o turismo na região. Assim, colaborou com o desenvolvimento de diversas cidades do sertão nordestino. Além disso, também garantiu o fornecimento de água para uma área bastante carente deste recurso.

Como chegar aos Cânions do Xingó

O ponto de partida da maioria dos turistas é a cidade de Canindé de São Francisco, em Sergipe, a cerca de 200 km de distância de Aracaju e 298 km de Maceió. A maioria dos catamarãs e lanchas saem do Restaurante Karrancas.

No entanto, existe uma segunda opção, na minha opinião muito melhor, com saídas de catamarãs e lanchas a partir de dois pontos: da Prainha da Dulce ou do Restaurante Show da Natureza, ambos na cidade Olho d’Água do Casado, Alagoas, a cerca de 220 km de Aracaju ou 272 km de Maceió.

Cânions do Xingó - Prainha da Dulce

Quais as vantagens de fazer o passeio a partir de Olho d’Água do Casado?

Preço: durante minhas pesquisas a diferença de valor era gritante. Enquanto o passeio de lancha custava R$ 360,00 o casal saindo de Alagoas, saindo de Sergipe o valor ia para R$ 600,00.

Distância: para quem sai de Sergipe, só para chegar na região mais visitada dos cânions, são cerca de 1h de navegação. Já ao sair de Alagoas, esse tempo reduz para 30 min. Desta forma, você tem mais tempo disponível na melhor região dos cânions, ao invés de ficar 2h das 3h do passeio só navegando.

Menos gente: exatamente por ser menos conhecido, os passeios que saem de Alagoas têm bem menos gente, tornando-o muito mais agradável e seguro, principalmente nesses tempos de pandemia.

Lucas Tur

Como estávamos hospedados em Piranhas e queríamos fazer o passeio com menos gente, minhas pesquisas se concentraram naqueles saindo de Alagoas.

Conhecemos o Lucas Tur através da recomendação de um barqueiro que realiza os passeios pelos cânions em Canindé.

O Lucas Tur e o Quiosque Flor do Mandacaru são uma empresa familiar, comandada pela Dona Ana, seu marido e os dois filhos. O Lucas é responsável pelos passeios de lancha, enquanto a Dona Ana e a Júlia tomam conta do Quiosque.

Cânions do Xingó - Quiosque Flor do Mandacaru

Eles possuem 3 lanchas com capacidade para até 9 pessoas. As saídas ocorrem todos os dias, a partir do Quiosque Flor do Mandacaru, na prainha da Dulce, localizada em um dos braços da represa do Xingó na cidade de Olho d’Água do Casado, a cerca de 20 km do centro de Piranhas.

Desde o contato inicial por WhatsApp até a conhecermos pessoalmente, a Dona Ana foi sempre muito simpática e cordial. No dia do passeio nos contou um pouco da sua história e de como a hidrelétrica foi bastante positiva para a cidade e sua família.

Como foi nossa experiência

Chegando no Quiosque Flor do Mandacaru

Marcamos com a Dona Ana nosso passeio numa segunda feira às 10h, na Prainha da Dulce. Como no dia anterior chegamos super em cima da hora para o passeio da Rota do Cangaço (sobre o qual falarei em breve), desta vez decidimos sair mais cedo da nossa pousada para não surtar no caminho!

A estrada de Piranhas até Olho d’Água do Casado é pista única com duplo sentido de tráfego em bom estado. Percorremos os cerca de 20 km em meia hora.

O acesso até a prainha da Dulce é bem sinalizado e o local conta com boa infraestrutura. Há um grande estacionamento, banheiros e dois restaurantes aos pés de um dos braços da represa do Xingó.

Chegamos com cerca de meia hora de antecedência. Aproveitamos esse tempo para andar pelo local e comer umas acerolas direto do pé (Para quem já leu os demais textos sobre essa viagem, já ouviram falar das acerolas deste pé. Será que tavam boas?!).

Nosso passeio começou logo depois das 10h. Éramos somente nós dois e o Lucas!!!

Cânions do Xingó
Essa lancha tinha capacidade para até 5 pessoas

Rota

Mal entramos no barco e já estávamos boquiabertos. Afinal, já estávamos no Monumento Natural do Rio São Francisco, onde estão localizados os cânions.

As chuvas haviam ocorrido recentemente, então a vegetação estava bem verde. Com certeza conhecer essa região durante o verão deve ser bem diferente, quando a caatinga está bem caracterizada.

Cânions do Rio São Francisco

Ao sair do pequeno braço nos deparamos com a magnitude dos cânions do rio São Francisco. Aquilo ali já era lindo demais! Mas ainda não era a cereja do bolo.

Cânions do Xingó

Em cerca de 10-20 minutos de um passeio bem confortável e rápido, viramos à direita e os paredões se aproximaram. Pareciam mais altos. O contraste entre as rochas alaranjadas e marrons com as águas esverdeadas do Velho Chico ficou ainda mais evidente. Chegamos na região mais famosa dos cânions do Xingó!!

Cânions do Xingó e do Talhado

Logo na entrada está a famosa imagem de São Francisco de Assis, onde anualmente ocorre uma missa que reúne os barqueiros da região.

A primeira parada foi numa plataforma flutuante. É ali que temos a opção de pegarmos um barquinho menor para entrarmos numa área mais estreita dos cânions.

Cânions do Xingó

Em novembro de 2020, o barquinho custava R$ 10,00 por pessoa. Pagamento somente em dinheiro, na hora.

Cânions do Xingó
O barquinho vai nesse pedacinho estreito

Demos a sorte (azar do barqueiro, tadinho), de bem na nossa vez o combustível acabar na metade do caminho. Fizemos todo o restante do passeio a remo, então pudemos apreciar a vista com mais calma e sem barulho! Não é um passeio longo, então mesmo mais lento, não atrapalhou em nada o rolê.

Para quem quiser, é possível seguir a pé por uma trilha a partir do ponto em que o barco já não pode mais seguir. Como nosso tempo era escasso e o barqueiro não podia ficar esperando a gente a manhã inteira para voltar, caminhamos somente uns 200 metros antes de retornarmos, mas o visual era incrível!

A parada no flutuante é de 1h e lá é possível mergulhar em uma das duas piscinas delimitadas por redes: uma com 10 metros de profundidade e outra menorzinha com cerca de 1 metro de profundidade. Além disso, o próprio local disponibiliza macarrões para os visitantes poderem relaxar nas águas cristalinas e mornas dos do Velho Chico.

Vale dos Mestres

Ao longo das minhas pesquisas me deparei com fotos deste lugar e precisava incluí-lo de qualquer forma no meu roteiro.

Há duas formas de chegar lá: por trilha a pé ou em pequenas embarcações. Por este motivo, quem faz o passeio pelos cânions de catamarã não conhecerá este lugar incrível!

Vale dos Mestres

O Vale dos Mestres localiza-se em Canindé de São Francisco e tem esse nome por causa dos vários sítios arqueológicos encontrados ao longo da trilha. Os mestres seriam aqueles que fizeram os desenhos rupestres que datam em até 3000 anos!!!

A Sylvia, do blog Lugares de Memória, visitou o Museu de Arqueologia de Xingó que conta um pouco da história dos primeiros habitantes da região.

A trilha tem cerca de 2km de extensão. Encontramos um grupo que havia feito a trilha e nos disseram que não é difícil, porém requer uso de sapato adequado, pois o terreno é acidentado, com muitas rochas a serem transpostas.

Vale dos Mestres
Trecho final da trilha

Apesar do tempo disponível não nos ter permitido fazer a trilha, pudemos desfrutar de uma parada de 1h na pequena e linda baía do Vale dos Mestres, com águas rasas, cristalinas e calmas como uma piscina, cercada pois dois paredões repletos de vegetação. Um pedacinho de paraíso quase na tríplice divisa de Alagoas, Bahia e Sergipe.

Pousada e Restaurante Castanho

No caminho de volta fizemos uma breve parada na Pousada e Restaurante Castanho, local onde a maioria dos passeios faz a parada para almoço.

Cânions do Xingó - Restaurante Castanho
Pausa para blogueirar!

Nós paramos somente para conhecer o local, pois decidimos almoçar no restaurante da Dona Ana.

Tomamos essa decisão por 2 motivos:

– Já havíamos tido a experiência no dia anterior de almoçar no restaurante indicado pelo passeio e não achamos muito legal a experiência. A comida estava gostosa, porém não era bem servida e os preços são bem mais caros que a média da região;

– Queríamos apoiar o pequeno estabelecimento da Dona Ana.

Retorno para o Quiosque Flor do Mandacaru

Regressamos para o ponto inicial após cerca de 4h de passeio e fomos desfrutar de um delicioso almoço à beira rio no restaurante da Dona Ana.

Comemos uma tilápia acompanhada de arroz, farofa e vinagrete que estavam deliciosos. O valor final da nossa conta no almoço foi de R$80,00. Além do prato principal, estavam incluídos uma coca de vidro de 1 litro e os 10%.

Saiba como foi nossa experiência não só no Quiosque Flor do Mandacaru, mas também em outros restaurantes no post sobre os Sabores do Nordeste,

Veredito

Os cânions do Xingó e o vale dos mestres são lugares de beleza ímpar que todos deveriam conhecer. Não faz feio para muita atração em outros países.

Cânions do Xingó

Ao realizarmos esse passeio com o Lucas Tur, não só tivemos a oportunidade de conhecer uma família super simpática, como também de desfruta-lo no nosso ritmo e sem muvuca.

Sem contar que fechamos essa experiência bárbara com uma refeição caseira e deliciosa no Quiosque Flor do Mandacaru!

Para mais informações, entre em contato pelo Instagram do Quiosque Flor do Mandacaru ou Whatsapp do Lucas Tur.

Dicas finais

Evite fazer bate e volta, a viagem é bem cansativa e não tem nada mais lindo que ver o pôr do sol e nascer do sol na região! Você pode dormir em Canindé de São Francisco ou em Piranhas, como fizemos.

– Se puder, faça o passeio pelos cânions do Xingó durante a semana, pois estará menos muvucado;

Cânions do Xingó

– Priorize fazer o passeio de lancha. Além de ter menos pessoas, você poderá incluir o Vale dos Mestres no roteiro. Ainda, poderá conversar com o barqueiro para evitar chegar nos locais junto com os catamarãs e outras embarcações. Quem sabe não dá a mesma sorte que a gente de ficar a maior parte do tempo sozinhos no local!

Leve dinheiro em espécie para pagar o passeio de barco pela parte mais estreita dos cânions e para imprevistos, como no nosso caso que estava sem internet para passar o cartão no almoço;

– Apoie a economia local e os pequenos empreendimentos como os da Dona Ana e sua família. Além de ajudar a comunidade local, o pequeno empreendedor foca no turismo de experiência, não no de massa, o qual lhe proporcionará uma vivência mais marcante, autêntica e única.

– Não deixe lixo por onde passa, não colete nada de origem animal, vegetal ou mineral. A interferência mínima possível naquele ambiente garantirá que ele seja contemplado por outras pessoas após você. Seja um turista consciente! Coletar um pouco do lixo que outros porventura deixaram ali é permitido e estimulado.

Cânions do Xingó e Vale dos Mestres

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