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Como não alugar um carro na Turquia!

Estava empolgadíssima para conhecer parte do Curdistão turco. Como fazer com agência estava saindo muito fora do meu orçamento (não que a gente tenha esse hábito, gostamos de fazer tudo, se não grande parte por conta), decidimos alugar um carro na Turquia pela segunda vez. A primeira, na Capadócia, tinha dado tudo certo!

Pesquisei muito para que tudo saísse o mais próximo possível do planejado. Já tinha plena consciência que algo poderia dar errado pela escassez de informações sobre esta região tão pouco explorada. Enfim, foi outra coleção de Perrengues Bárbaros que, lógico, não chega aos pés do que passamos na Namíbia!

1- Trocaram nosso voo dois dias antes da viagem

Olha, se não fossem os anos de terapia, teria voltado numa camisa de força depois desse episódio!!

Estávamos em Istambul, passeando, quando de repente olho o celular e tinha um email da Turkish Airlines (TA) dizendo que nosso voo havia sido alterado do dia 27/03 para o dia 28/03.

Meu coração veio até a boca! Como assim eles estavam mudando o dia do nosso vôo? Eles já haviam mudado outros vôos, mas nenhum de dia… Nós tínhamos hotel reservado, carro reservado, sem reserva alguma em Istambul para o dia da troca.

Mardin

Respirei fundo algumas vezes, dei uma leve surtada, sentamos num banquinho qualquer e começamos a pesquisar para onde teríamos que ligar para tentar resolver este problema. Todas as tentativas foram infrutíferas. Lembramos que havíamos passado em frente a uma loja da TA na região próxima da Mesquita Azul. Procuramos no google maps onde era.

Fomos até o endereço indicado. Não era lá. Mas nos indicaram uma agência que trabalhava com a TA, onde nos passaram o telefone correto.

É incrível como meu inglês flui quando estou nervosa!! Expliquei toda a situação e após uns 30-60 min depois de receber o bendito email, havia conseguido retornar nosso voo para o mesmo dia, porém só embarcaríamos cerca de 2h depois, chegando em Diyarbakir por volta do meio dia. Paciência, ao menos iríamos no dia planejado!

Como evitar ou como reagir a essa situação?

Antes mesmo de viajar tenha em mãos todos os telefones para entrar em contato com a cia aérea, hotel, locadora de veículos etc. Algumas situações precisam ser resolvidas por telefone, pois o email pode demorar demais para ser respondido.

Por este motivo também que sempre falo que é muito mais vantajoso ter um chip local e não aqueles internacionais. Se ainda assim fizer questão do último, sempre inclua plano de voz além dos dados no seu pacote.

Acima de tudo, mantenha-se calmo para conseguir raciocinar neste momento e encontrar a melhor solução que te prejudique menos.

No meu caso, consegui resolver ao sugerir mudança de aeroporto, mas de forma alguma poderia alterar o dia de embarque. Consegui mudar para um aeroporto mais próximo, mas tive que mudar o horário para mais tarde. Se estivesse em pânico, não teria nem me passado pela cabeça essa opção. Dos males, o menor!

2 – Alugar um carro na Turquia nunca foi tão difícil

Reservamos o carro pela Europcar. Já que estávamos em um lugar tão pouco turístico, que ao menos seja com uma empresa conhecida e confiável.

No entanto, para nossa surpresa, os funcionários do quiosque no aeroporto não falavam absolutamente nada de inglês. Sério! Na minha cabeça esse tipo de estabelecimento, que oferece serviços para turistas, tem que ter pelo menos um funcionário que fale inglês. Da-lhe google translate!

Mostramos a reserva (ainda bem que tava escrito em turco também), demos a PID e ficamos esperando os procedimentos normais. Na hora de pagar a caução, a transação não concluía de forma alguma. Até hoje não sabemos se o problema foi da máquina ou do cartão (apesar de já o termos usado ao longo da viagem…). Foram diversas tentativas em vão. Como a comunicação tava sofrível, eles aceitaram o pagamento somente do “one way” em dinheiro, pois iríamos devolver o carro no aeroporto de Mardin.

Diyarbakir

O que fazer nessa situação?

Tenha sempre o voucher da reserva do carro em mãos. Não necessariamente impresso, mas o tenha salvo no seu celular. Geralmente as empresas enviam o voucher da reserva em português e inglês. No caso das reservas que fizemos na Turquia, também estavam em turco. Especificamente para a Turquia, recomendo fortemente que, caso não seja enviado, tente traduzi-lo de alguma forma para o turco, pois tivemos pequenos problemas de comunicação também ao alugar carro na região da Capadócia.

Se possível, também tenha mais de um cartão de crédito. Nós só tínhamos um e por sorte não tivemos problemas por não ter conseguido passar a caução. Todavia, pode ser que você não tenha a mesma sorte e não liberem o carro de forma alguma.

E não esqueça de baixar o turco off-line no seu celular!

3 – Quem disse que terminou o perrengue do carro?

Achando que o pior já tinha passado, mais uma surpresa nos esperava. Um dos pneus do veículo estava totalmente careca, e os outros no limite. E para explicar isso para o funcionário? Sério, que parto foi alugar esse carro na Turquia!!!

Ele insistia que não tinha problema, que a polícia não ia multar, mas a gente tentava explicar que o problema era de segurança. Naquele dia chovia, iríamos pegar vários quilômetros de estrada e de forma alguma queríamos arriscar nossa segurança com um carro naquelas condições.

Além disso, para melhorar a situação, o carro fedia mais que cinzeiro. Terrível. Carro sujo, todo batido. Sério, nunca nos ofereceram um carro em condições tão ruins. Imagina se fosse uma empresa desconhecida…

O funcionário nos explicou que não havia outro carro disponível ali no momento, só na loja do centro, que demoraria para chegar. Já estávamos tão irritados, há pelo menos 1h naquela novela para retirar o veículo que pensamos: Ou aceitamos ou não sairemos daqui hoje.

Midyat

Nos despedimos do cara, colocamos as coisas no carro e fomos sair. Mas quem disse que havia acabado a novela??? Meeeeeeeu, o carro não ligou!!!!!!! Como assim?????

Voltamos para o saguão, revoltados, escrevi um texto monstruoso no google translate, dizendo que queria outro carro, que aquele eu não aceitava, que era inadmissível aquela situação… Foi quando eles decidiram nos dar um upgrade!!

O carro era do ano, completinho, ainda assim bem batido, quase não fedia e os pneus estavam ok!!

E eu, o que faço?

Segurança deve vir sempre em primeiro lugar. Não aceite de forma alguma um veículo sem os equipamentos mínimos de segurança. Ainda bem que o carro não pegou, não teria sido a melhor decisão que teríamos tomado o aceitando daquela forma.

Cheque todas as condições do veículo antes de recebe-lo. Durante a vistoria coloque tudo no relatório, cada arranhão.

Também pesquise sobre a empresa que você está reservando o veículo. Que tipo de problema as pessoas tiveram, se e como foram resolvidos, etc. Evite ter surpresas desagradáveis e depois nem ter para quem reclamar.

4 – Finalmente vamos turistar! Só que não…

Já eram umas 14h30 quando finalmente conseguimos sair do aeroporto. Desistimos de almoçar, nosso pouco tempo na cidade estava agora ainda mais curto. Ainda bem que tínhamos um estoque de pistaches na bolsa!

Sou dessas, deixo de comer para turistar! Por isso voltamos sempre com pelo menos uns 2 quilos a menos das nossas viagens!

Chovia constantemente, trânsito desorganizado e não conseguíamos chegar em nenhum dos pontos que a gente colocava no mapa. Ou o caminho que o google maps indicava estava bloqueado pela polícia ou as ruas eram impossíveis de se passar com um carro.

Tentamos em vão acessar outros pontos que havia marcado no meu roteiro. Só queria ir para o hotel naquele momento. Desde antes mesmo de pisarmos na cidade, tudo estava dando errado.

Como estávamos passando ao lado da muralha de Diyarbakir, sobre a qual expliquei a história previamente, paramos em um lugar que dava para acessar seu topo. Lá do alto, de um lado a gente via o Tigre e a planície mesopotâmica. Do outro, uma cidade judiada.

Deu um pouco de desânimo. Esperava que ao menos a Old City estivesse mais bem conservada. Fui imatura, ataques terroristas desconsideram esse tipo de coisa…

5 – E o pneu furou…

Ainda tentando conhecer um pouco de Diyarbakir, aparece um sinal no painel do carro de que um dos pneus estava com baixa pressão. Pois é, o pneu tava no chão… meeeu era só o que faltava, um pneu furado e ter que trocá-lo embaixo de chuva. Socorro!!!

A gente não sabia nem como tirar o estepe debaixo daquele carro, e as instruções em turco não era muito intuitivas!!! Acho que foi nesse momento que a entidade dos viajantes zicados (uso outra palavra, mas o google não gosta!) percebeu que tava exagerando e decidiu nos mandar um anjo da guarda!

No meio desse sofrimento, apareceu um homem que perguntou, em turco, ao Yu se precisava de ajuda. Ao responder “Sorry”, ele desencanou e foi embora.

Imediatamente, sai do carro para perguntar o que o moço queria e também para dar um apoio moral. Não sei se foi porque ele me viu ou se o moço ficou com dó da gente, ou os dois, ou uma quarta opção, mas ele deu meia volta, quando digitou no google translate (na verdade, no app similar que eles usam lá) se a gente precisava de ajuda.

Perguntei se ele poderia nos indicar um lugar para arrumar o pneu, pois o estepe era daquele tipo que só dá para andar até a borracharia, logo, teríamos que arruma-lo antes de seguir viagem. Ele escreveu: “Vem comigo e deixa que eu negocio!”. Nos entreolhamos sem entender e decidimos seguir aquele estranho.

6- Será golpe?

Ele nos levou para trocar o pneu, negociou o valor a ser pago (parecia uma briga segundo o Yu!) e ao final, com o pneu consertado e trocado por um preço justo (uns 20 reais), nos perguntou: vocês querem que eu leve vocês para conhecer a cidade???? Nos entreolhamos com aquela sensação de: É golpe!! Perguntamos quanto nos custaria e ele disse que nada. Achamos bem estranho aquilo, mas, naquele momento quem está na chuva tá para se molhar, literalmente! Era isso ou não conheceríamos nada de Diyarbakir, mesmo que tivesse alguma pegadinha ao final.

Ele nos levou para conhecer diversos pontos da cidade, vários que eu havia marcado no meu mapinha! Andamos por aquelas ruelinhas, entramos numa baladinha que tava super animada, regada a chá, lógico (por mim teria ficado lá o resto do dia!), passamos por mesquitas, pátios, biblioteca, museus, tudo e mais um pouco! Ao final ele nos levou ao Museu de Diyarbakir, no entanto já estava fechado. Fiquei chateada de não ter conseguido entrar… paciência, a gente poderia ter visto bem menos coisa, ou nada!

Importante ressaltar que fizemos tudo isso embaixo de chuva!!! Nosso pé estava ensopado, mas estávamos tão felizes. Foi como um abraço de mãe. Um dia todo errado de repente se transformou!!

Estamos sonhando?

Ah! Esqueci de uma parte da história! Tinha lido que esta região é a principal produtora de damasco da Turquia, exportando para outros países. Perguntamos ao Muhhamed (Ah é! Esse é o nome do nosso anjo da guarda!) onde poderíamos comprar um pouco. Ele nos levou numa lojinha, negociou o preço, perguntou se 20 liras (cerca de 13 reais) era um bom preço para um quilo (e nós incrédulos perguntando se era um quilo mesmo!) e ele não só comprou como se recusou a receber nosso dinheiro.

Sério gente, foi um dia mágico. O Muhhamed foi incrível com a gente. Que sorte a nossa dele ter cruzado nosso caminho!!! Ah, e não era golpe!! Ele realmente não quis nada em troca! Brasileiro é sempre desconfiado, né?

Nosso anjo da guarda!!

Ao final, trocamos contatos e seguimos para Mardin, já noite, ensopados, com fome, porém realizados!!!!! A sensação de saber que ainda existe gente boa no mundo conseguiu superar tudo de ruim que havia acontecido até aquele momento. E não, não jantamos. Chegamos ao hotel, tomamos um banho e capotamos.

Alugar um carro na Turquia pode ser eventualmente um pesadelo, mas também se transformar em uma das melhores experiências sociais que você já teve na vida!

Foto mais representativa desse dia: respeito às diferenças e empatia.

Blogagem Coletiva

Este post faz parte da blogagem coletiva com o tema “Perrengues de Viagem”. Quem também contou seus causos foi:

Se Joga no Roteiro – Perrengue de viagem – Lago Titicaca!

Contos e Encontros – Perrengues de Viagem Parte 2

Mariscando – Perrengue de viagem em Bruxelas: o voo barato que saiu caro

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